terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mrs. Hyde

Pior que a insônia é não ter onde se esconder quando ela aparece. É não ter mais meu canto para reclamar me esperando silencioso. Eu nem imaginava o quanto isso fosse me doer e o quanto é importante. Para o que me tornei, para o que a solidão e as bizarrices da vida fizera de mim. Hoje já não consigo deitar num colo e ficar conversando até dormir. É triste isso. É revoltante.

Tornei-me escrava daquilo que me incomodou durante anos. Do que me incomoda. E ainda consigo deixar tudo pior quando ajo de uma forma tão inacreditável que eu mesma não concebo, pareceu um pesadelo, daqueles que a gente REALMENTE fica se perguntando porque agiu do jeito que agiu. Só que não foi pesadelo, aconteceu.E houve testemunhas. Por mais que eu me analisasse e encontrasse os gatilhos psicológicos coniventes, já foi, aconteceu. E o conhecimento desses tais gatilhos não ameniza nada, nem para mim nem para os que foram atingidos.

Anos de terapia, milhões de páginas de livros, toneladas de remédios, milhares de decepções, de perdões não concedidos, e de novo vejo que, cacete de lado o caralho, eu continuo a mesma nojentinha, a bruxinha que se descobriu proscrita aos 4 anos de idade, feia e sozinha, em meio às princesas que hoje, volta e meia, embora mais próximas, não deixaram mais cedo ou mais tarde de me desprezarem, ainda que eu faça o que manda o bom senso, o que seja bom, certo e politicamente correto."Iluda-se um tempo, darling, porque você vai ter seu troco por ter nos enganado", algo assim.
Cansei. Não há nada mais que eu possa fazer contra isso, a não ser me isolar como sempre e dar meus brados inúteis e silenciosos nessa merda de internet.Que ninguém vai se dar ao trabalho de se preocupar.
Quem diabos disse que eu podia ser tanto ou mais que qualquer pessoa?

A merda pode ficar suspensa um tempo, presa, mas é certo, a barragem vai começar a rachar, a vazar aos poucos, e toda ela (a merda) vai voltar, cada vez mais podre, triunfante com o fedor do fracasso.

Consegui dormir alguns dias numa espécie de letargia consciente e realmente achei que esse era o caminho para conseguir viver sem mais sustos, como os que causaram colapsos mentais e cortes físicos. Mas fui acordar justo agora, a porra de mais um ano acabando, olho em volta e já estou sem meu último amigo, sem emprego, sem porra de vida normal, sem o ferro velho que servia para que eu vomitasse a decepção e a revolta pelos anos de vida sem sentido, sem função, sem direção, além do meu jeito nada atraente e uma senhora Hyde pronta para aparecer quando eu queria apenas me divertir, capaz de repelir qualquer pessoa.

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